2.7.09

O que é e o que devia ser: Um diálogo com Krishnamurti

Interrogante: Li muito de filosofia, psicologia, religião e política, matérias essas que, em maior ou menor grau, aludem às relações humanas. Li também vossos livros, que se ocupam com o pensamento e as idéias e, por alguma razão, me sinto enfarado de tudo isso. Estive nadando num oceano de palavras, e em toda parte aonde vou só se me oferecem mais palavras e ações derivadas dessas palavras: conselhos, exortações, promessas, teorias, análises, remédios. Naturalmente, tudo isso deve ser posto de parte; vós mesmo o fizestes, mas, para a maioria dos que vos têm lido e ouvido, o que dizeis são só palavras. Deve haver pessoas para as quais o que dizeis representa algo mais do que palavras, uma realidade absoluta, mas refiro-me aos demais. Eu gostaria de ultrapassar as palavras, ultrapassar a idéia, para viver em relação total com todas as coisas. Pois, afinal de contas, essa relação é vida. Tendes dito que cada um deve ser mestre e discípulo de si próprio. É-me possível viver com toda a simplicidade, sem princípios, crenças, e ideais? Posso viver livremente, sabendo que sou escravo do mundo? As crises não nos batem à porta antes de entrarem, os desafios da vida de cada dia surgem antes de os pressentirmos. Sabendo isso, tendo-me visto tantas vezes a braços com esses desafios, a perseguir fantasmas, pergunto-me a mim mesmo como posso viver corretamente e com amor, clareza e alegria não forçada. Não quero saber como viver, porém viver; o "como" nega o próprio viver real. A nobreza da vida não consiste em praticar nobreza.

Krishnamurti: Após dizerdes tudo isso, onde vos achais? Desejais realmente viver com felicidade e amor? Se o desejais, onde está o problema?

Interrogante: Eu o desejo deveras, mas isso não me leva a parte alguma. Há anos que desejo viver dessa maneira, mas não posso.

Krishnamurti: Portanto, embora negueis o ideal, a crença, a diretiva, estais, com muita sutileza e de maneira indireta, perguntando a mesma coisa que todos perguntam; é o conflito entre "o que é" e o que "deveria ser".

Interrogante: Mesmo tirando-se o que deveria ser, vejo que "o que é" é horrível. Enganar a mim mesmo, para não vê-lo, seria muito pior ainda.

Krishnamurti: Ver "o que é" é ver o universo, e rejeitar "o que é" é a origem do conflito. A beleza do universo está em "o que é"; e viver com "o que é", sem esforço, é virtude.

Interrogante: "O que é" inclui também a confusão, a violência, toda espécie de aberração humana. Viver com "o que é" é o que chamais virtude. Mas isso não é insensibilidade e insânia? A perfeição não consiste simplesmente em abandonar todos os ideais! A própria vida exige que eu a viva com beleza, como a águia nos ares; viver o milagre da vida, carecendo da beleza total, é inaceitável.

Krishnamurti: Então, vivei-o!

Interrogante: Não posso.

Krishnamurti: Se não podeis, vivei então em confusão; não batalheis contra ela. Conhecendo toda a aflição que ela traz, vivei com ela, isto é, com o que é. E viver com "o que é", sem conflito, liberta-nos dele.

Interrogante: Quereis dizer que nosso único defeito é sermos autocríticos?

Krishnamurti: Não, de modo nenhum. Não sois suficientemente crítico. Não ides mais longe em vossa autocrítica. A própria entidade que critica precisa ser criticada, examinada. Se o exame é comparativo, feito de medida em punho, então esse padrão é o ideal. Se não há padrão nenhum - por outras palavras, se a mente não está sempre comparando e medindo - podeis observar "o que é", e então "o que é" já não é a mesma coisa.

Interrogante: Observo-me sem nenhum padrão e, no entanto, continuo a viver sem beleza.

Krishnamurti: Todo exame requer um padrão. Mas, é possível observar de maneira que só haja observação, ver, e nada mais - que só haja percepção, sem a entidade que percebe?

Interrogante: Que quereis dizer?

Krishnamurti: Há o ato de olhar. A aferição desse "olhar" é interferência, deformação do "olhar": não é olhar; ao contrário, é avaliação do "olhar"; são duas coisas tão diferentes como um pedaço de giz e um pedaço de queijo. Tendes percepção de vós mesmo, sem a deformação, apenas uma absoluta percepção de vós mesmo, tal como sois?

Interrogante: Tenho.

Krishnamurti: Vedes fealdade, nessa percepção?

Interrogante: Não há fealdade na percepção, porém na coisa percebida.

Krishnamurti: A maneira como percebeis é o que sois. A virtude está em olhar puramente, ou seja com atenção, sem a deformação produzida pela medida e a idéia. Viestes aqui a fim de perguntar como viver com beleza e amor. Olhar sem deformar é amor, e a ação dessa percepção é a ação da virtude. Essa clareza da percepção atuará constantemente no viver. Isso é viver como a águia nos ares; é a beleza viva, o amor vivo.

Com os nossos agradecimentos à última e excelente (como sempre) newsletter da Instituição Cultural Krishnamurti, que pode ser lida na íntegra aqui. Aconselhamos vivamente, de resto, a subscrever gratuitamente este magazine digital dedicado ao grande pensador indiano.

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