14.9.10

Krishnamurti e a violência

«(…) Suponha que eu seja agressivo, furioso, ciumento, embrutecido, movido pela ambição, que leva à competição e assim, estou sempre a comparar-me com alguém. Essa comparação faz com que eu me sinta inferiorizado diante de vocês. Então ocorre uma luta, violência e todas essas coisas. E eu digo a mim mesmo: "Tenho que me livrar disso. Quero viver em paz. Apesar de o homem viver assim por milhares de anos, é preciso que haja uma mudança. Deve haver uma mudança na sociedade, por pior que ela esteja.". Como tal, eu lanço-me ao trabalho social, esquecendo, consequentemente de mim mesmo. Mas o trabalho social e a sociedade são eu mesmo e então percebo os truques que a mente faz. Agora vejo a mim mesmo e percebo que sou violento.

Como perceber essa violência? Como o julgador que a condena? Ou justificando-a? Como alguém incapaz de lidar com essa violência e que por isso foge dela? Como perceber a mim e a essa violência? Por favor, experimente. Você está olhando como um observador alheio à violência, que condena, justifica e diz: "Isso é bom", então faço? O observador percebe a violência, distanciado dela e a condena? Ou o observador é observado? Ele reconhece a violência e a separa de si mesmo, a fim de fazer algo a respeito, mas essa separação é apenas um dos truques de seu pensamento. O observador é o observado e é a violência. Enquanto houver essa fragmentação, esse distanciamento entre observador e observado, haverá violência. Quando eu captar, não verbalmente, mas realmente com o coração, a mente, com todo o meu ser, então o que ocorre?

Você sabe que quando observa algo, há sempre não somente a separação e o distanciamento do observado, mas também o desejo de identificar-se com o que é bonito, nobre e de não se identificar com o que não é. Então a identificação é parte de um truque da mente que se separa a si mesma, tornando-se o censor e tenta identificar-se com o que observa. Considerando que, quando o observador se torna consciente de que é parte do que é observado, e ele é, consequentemente, não há imagem, representação entre observador e observado, então percebe-se que o conflito se extingue por completo.

Isso é verdadeira meditação. Não apenas um truque. Portanto, é muito importante, imperativo compreender-se profundamente, todas as reacções, todos os condicionamentos, os vários temperamentos, características, tendências. Apenas testemunhar, sem o observador. Observar sem o observador. Esse é o acto de aprender e, portanto, essa é a acção (Krishnamurti aqui se refere à "acção que é completa", mencionada no quarto parágrafo do texto: (…) Podemos encontrar uma maneira de viver, não uma ideia abstracta, uma concepção filosófica, uma teoria, mas efectivamente um modo de vida que seja uma acção completa, plena e totalmente não contraditória).»

Jiddu Krishnamurti falando em San Diego, em 5 de Abril de 1970. Krishnamurti Foundation Trust - Boletim 84 - 2003

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